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terça-feira, 20 de julho de 2010

se você ligar o rádio, todas as canções irão dizer: goodbye my love so long...


Saudade é doença sorrateira. E mata a gente, morena.
Se saudade tivesse antônimo, felicidade era pipoca em bilheteria de cinema. E arco-íris teria 32 bits.
Todos os escritores já cantaram como é lindo recordar. Descreveram barrocamente as maravilhas de tirar a poeira dos livros e de sentir cheiro de infância. Mas ninguém lembra o alívio morno que é esquecer.
Receita para esquecer é tônico capilar: parece simples, mas não funciona. E aí a gente se meleca todo achando que vai dar certo, mas acaba se descabelando tentando.
Pois não há mandinga, ar fresco ou pinga que ajude a não lembrar. Muito menos Santo Esquecimento das Dores. E a penitência é das bravas: quanto mais se resolve esquecer, mais a lembrança te persegue, estampando a cara em painéis de neon.
Lembrança é tudo que não existe mais e não sabe disso. Daí fica se movimentando igual membro amputado, dado tapas e afagos na gente. E ainda te deixa amarrado no pé da cama, implorando para ela voltar e te libertar. Lembrar é pura ilusão de ótica: você só enxerga a parte feliz.
Se esquecer fosse brincadeira, perdoar era unidunitê. Como não é, a gente fica feito bobo, correndo pra lá e pra cá, tentando catar lembrança no ar e segurar. E eta bicho arredio!
Pois se eu pudesse esquecer, todos os meus textos seriam coloridos. As palavras ririam soltas no papel. Obviamente, não choveria tanto em mim. Ou choveria: confete e serpentina. E todo dia seria carnaval. Porque carnaval, seja ele como for, passa na avenida e arrasta tudo com ele. Sua recordação parece tão distorcida da realidade que reside num universo paralelo, longe demais para machucar.
Se eu pudesse esquecer, celebraria meus finais com champanhe. E todo o meu adeus viraria samba-enredo pro meu coração desfilar.

why can't we give love that one more chance?


A fruta demasiado madura possui momentos de plenitude, antes de se espatifar cruelmente por um chão impassível. Da mesma forma, decepções foram um dia promessas de felicidade eterna e invernos mais amenos.
Newton observou o momento de vertigem da fruta para elaborar uma lei física: a gravidade atrai todos os corpos para o centro da Terra. O que Newton se esqueceu de dizer é que não só nossos corpos devem ser mantidos firmes ao chão. Algo também impele nossos sentimentos a não flutuarem por galáxias longínquas.
É como se a todo momento segurássemos firmemente um bonito balão vermelho, desses que ganhamos em parques de diversões, para não escapar. E nos agarrássemos contentes aquela cordinha frágil, pois se o balão voasse não o teríamos de volta, e isso nos faria chorar.
Uma hora porém, a mão escorrega, a gente tropeça, alguém nos empurra, e lá se vai o balão vermelho sem a mínima piedade.
Perder nosso primeiro balão vermelho não é fácil. Você não entende o porquê dele ter escapado daquela forma, sem nem sentir falta da segurança e dedicação que você oferecia.
Depois de perder vários balões vermelhos, você já passa a segurar vacilante a cordinha. Ou passa a amarrá-lo de todas as formas possíveis. O balão quando preso, é só a ilusão de um troféu merecido. Com o tempo ele fica triste, pra baixo. Vai murchando, declinando, arrastando pelo chão. Nem de longe parece aquele balão bonito e vermelho que você tanto gostava.
O que fazer então? A dor da perda é ruim e sofrida, mas também não é agradável viver respirando poeira de baú.
Talvez seja melhor você soltar o balão quando for hora. É mais bonito vê-lo balão, rindo de lá de cima das nuvens. E esperar um balão novo, talvez azul, que te leve as alturas por mais alguns segundos.

na sala ao lado


Ao ato de esperar já nos fazemos condenados desde o primeiro choro: uma mãe espera ansiosos meses para conhecer seu buliçoso inquilino, a quem estará conectada para o resto da vida.
Há quem passe a vida toda a esperar algo. Ou alguém. Há quem espere felicidade, e aqueles que só esperam o dia passar. Há quem espere para entrar. Há quem espere para não morrer. Esperar está sempre ligado a uma outra ação, ou uma manada furiosa delas. Seja como for, o ato de esperar é sempre envolto em confuso mistério.
Esperar é o inimigo confuso que te surpreende no escuro. Você pode passar o dia inteiro próximo a janela, em total alerta, que provavelmente o que você espera chegará pela porta dos fundos. E mesmo com esse susto, você se dará por felizardo: nem sempre o que se espera aparece.
Cada um ameniza a espera como pode. São nossas revistas de consultório de dentista. Minha maneira favorita é amaldiçoar os ponteiros do relógio. O passar preguiçoso deles me faz pensar que existem pessoas que esperam horas e recebem minutos. Eu sempre recebi milênios.
Culpa talvez da minha mania de querer que o trem ande depressa, de querer que o mundo gire mais rápido, de querer que as coisas rompam a inércia. De querer tanto o agora.
Penso que deve ter sido daí que surgiu a palavra desespero. Quem desespera, não espera mais nada: vive sem destino, a mercê do medo. Medo de que nunca venha. Medo de estar conectado ao que se espera, inexoravelmente, para o resto da vida.
Toda espera inclui em essência nosso desejo medroso de ser feliz.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

relógio em vez de retrato na cabeceira



Quando ele chegou já não havia nem mato nem vida nem alegria.
Era tudo tão árido e pouco que mesmo o peito inundado sofria um lamento rouco,
no dia em que ele chegou.
E ela, já decidida, dizia que ia mudar
colocou o coração na mala, quase pensou em tirar
agora, que ele chegou.
Ouviu o anúncio dos céus e a luz do relampejar
Abriu a janela contente, sorriu, começou a cantar:
é hoje meu Deus, eu já sinto, que minha sorte há de mudar!
As nuvens em resposta tremeram, as árvores a festejar
Ninguém que era vivo dormia, na garganta um louco pulsar
E a esperança gritava desvairada, acompanhando o compassar
dizia que ele chegou.
Correu criança, tia, sobrinha. Correu tudo que perna tinha
os braços jogados pro ar,
os dedos desejando as gotas, que porventura viessem repousar.
Ela olhou e nada viu. Não era ele quem estava lá. E a chuva que ameaçou não caiu,
só um leve orvalhar.
O sol levantou irritado, tomou posse do lugar, a sorte que era dela não veio, tudo se pôs a queimar,
a única coisa que chovia, era a dor que ardente doía, no corpo a soluçar.
E ela logo sabia, que aquele era só mais um dia, um dia de cama vazia
Um dia que ele não veio.

domingo, 4 de abril de 2010

today this bird flew away


Estou deixando para trás. Lavando as escaras com a mesma água em que me banhei incontáveis vezes.
Minhas mãos, outrora ávidas, hoje são semimortas e cicatrizam vagarosamente. Abandonei minhas cansadas justificativas e voei. Larguei mão do quase. Do intangível. Do talvez. E agora meu voo é leve.
Quero sentir, se ainda puder. Mas com meu corpo cansado, meus olhos míopes, meus poros abertos. Quero sentir todo, e sempre. Porém só o tanto que couber em mim, que não é mais tudo. Quero escutar a sinfonia do legato e deixar de vez esses tantos desencontros. E me proíbo de sentir com a imaginação.
Volto se der, na mudança de estação. Quando o verão chegar, pintando o céu de amarelo alegre. Mas volto só para dizer que nunca mais vou ficar.
O tempo já feriu demais meu rosto, já não quero o antigo em mim. Terminei a história. Fechei o livro.
Quebrei o ciclo.