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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

a emoção acabou, que coincidência é o amor, a nossa música nunca mais tocou...



Em minhas viagens quando pequena, abatia o tédio com uma brincadeira chamada "máquina fotográfica". Nela, eu procurava alguma imagem pelo caminho, seja uma árvore, uma nuvem ou um passarinho, focava minha visão já meio míope nela, e depois fechava os olhos, procurando lembrar de cada detalhe, em vivas cores, do que eu havia "fotografado".

Eu cresci e me esqueci de desbrincar, e aí as imagens, ou fotografias do que vivi, ainda são coletadas com todas as suas minuciosidades e histórias. É como se cada detalhe, por mais que tenha ficado pelo meio da estrada, ficasse registrado profundamente em um álbum de memórias. Memórias da minha vida. E talvez por isso, por lembrar demais do que se vive, eu passe a dar mais valor aquelas pequenezas. Como se eu desse mais importância aos momentos que eu vivi do que meus coadjuvantes. Pois fica registrado em mim aquilo que se facilmente perde no vento, um leve sorriso, um jeito de tamborilar na mesa, um jeito de mexer a cabeça quando contrariado. Os segundos antes de um beijo, o princípio de um choro, um olhar de adeus.

E talvez eu seja mesmo uma grandessíssima tola, por encarar minha vida como um conto, por não compreender que se possa sentir e des-sentir, querer e des-querer, amar e desamar. Nunca compreendi a fugacidade das pessoas. Nunca compreendi as pessoas, na verdade. E toda vez é o mesmo do mesmo. Como se eu simplesmente não pudesse apagar o que eu já tivesse escrito. Como se não houvesse outro jeito de me livrar das fotografias senão jogando-as para o fundo impiedoso de uma lixeira.

E talvez seja por isso também que eu tenha que agir como esse furacão que sou, rasgando as fotografias que registrei, apagando todos os vestígios do que um dia pareceu existir e foi em vão. Como se eu não pudesse deixar meu livro com aquelas páginas sem sentido, como se precisasse destrui-las, maldizê-las. E mentir baixinho, para mim mesma, todo dia, até se tornar uma verdade: nunca aconteceu. Nunca aconteceu. Nunca aconteceu.