terça-feira, 18 de dezembro de 2012
something like olivia
Me leia.
Me leia que sou coisa certa no papel, me leia.
Toca as marcas, sente o cheiro, traz pra perto de você, das suas vistas cansadas, me leia.
Deixa sua leitura me despir inteira. Deixa eu ser lida em sua voz alta, declamada em sussurro, devorada em silêncio, deixa eu entrar na sua cabeça e ser o que você interpretar.
Me percorra nas entrelinhas, que eu enchi só pra você.
Me leve pro sofá, pra mesa, pra cama. Me leia até eu adormecer no seu colo, enquanto você sonha com meus "se".
Vê. Vê que misturei três cores de caneta pra você me notar. Que eu mudo meu tom, a voz, a pontuação.
Vê que me espalho mas caibo nas reticências. Vê que me calo mas meu verso não.
Me diz se te confundo em coerência e coesão. Mas vê se te agrado, te espanto ou te frustro. Lê e me diz em que parte parou. Lê e me diz se vai até o fim. E se chegar até lá, me diz se gostou.
Vê se percebe, agora ou depois, que eu fui trocando de pessoa em pessoa só pra chegar em nós.
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
é água do mar, é maré cheia...
Amar e amor, eis a dicotomia que para mim fundamenta a liquidez das relações humanas. Pois amor é coisa substantivada, e como tal pode pesar aos ombros de quem o carrega por muitas milhas. Ou há quem queira comprá-lo em alguma esquina, ou procurá-lo pela vida inteira. Já amar é ato, que pode ser feito quando se quiser, na hora que se quiser, independente da direção do vento. Amor é um presente de datas comemorativas. Amar é uma escolha diária, um sim de olhos fechados ao que vier, e der. Ou se não der também. Quem escolhe amar ao invés de amor, pode sempre amar, e re-amar, e viver re-amando contra todas as correntes, desbravando o mar que é a vida, até encontrar a felicidade (que é uma coisa, e só).
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
o meu amor sai de trem por aí e vai vagando devagar para ver quem chegou...
As lembranças mais vívidas que tenho de minhas andanças são daqueles instantes em que o ônibus deixa devagar a estação e minhas reflexões inundam o espaço entre o chegar e partir.
Aquele aperto no peito de uma saudade antecipada, uma chegada sorrateira da falta que não existia há poucos segundos atrás.
Meu sentimento é que vou deixando ali, em câmera lenta, pedacinhos do meu coração, que vão caindo em cada esquina que dobra meu adeus. Alguns pedacinhos ainda consigo rever, recolher do chão, reajuntar desajeitados. Outros sempre carrego coladinhos com a saudade aqui no peito. Mas outros sei que ficarão por ali, pelas estradas que dificilmente passarei novamente. Caminhos perdidos pelo tempo, pela dor ou pelo desencontro, dos quais só levo memórias que não pesam na sacola.
Minha esperança é no meu chegar receber um tantinho que seja de algo para preencher os meandros cavados pelas lágrimas da despedida. Ou que alguém me ligue e diga que encontrou um pouquinho de mim por aí, perdido e sem rumo, e que achou por bem devolver.
E que eu vá carregando assim meu coração andarilho, até que um dia, remendado e cansado, ele aporte tranquilo no cais que deveria estar.
segunda-feira, 23 de abril de 2012
e eu vou lá, que o mar é destino desaguar
Ninguém pergunta ao mar a razão de ter água demais até ele tentar roubar seus pés na areia ou destruir sua casa. Ninguém questiona sua força até ele se revoltar ou te chamar para perto. Ninguém. De longe sua imensidão entorpece, um azul profundo pincelado com gotas de sol. A uma distância segura, o mar é capaz de se fazer apaixonar: calmo e submisso, acolhe seus olhos magoados da areia e os aplausos da platéia. De perto não. De perto é muita água turbulenta brigando entre si, redemoinhos confusos e alguns vazios que ofendem as promessas de navegação. De perto dá medo. De perto é intenso demais.
Ao contrário de muitos, me apaixonei pelo mar em ressaca. E desde então cenas rotineiras como o café no balcão da padaria ou revistas na banca de jornal ganharam cores de Almodóvar. Eu vejo com intensidade, e escrevo forte até sentir as marcas do papel na minha pele. E eu sinto. Sinto muito. Sinto até transbordar por todos os poros, até sentir o sangue quente doer os ossos e o estômago dar piruetas. Sinto tanto que nem cabe em mim, a ponto da maior parte sair pelos olhos. Água e sal que ninguém quer navegar.
De longe soa poético. Chega até a atrair, cativar, entreter. Mas de perto não. De perto dá medo. De perto é intenso demais.
quarta-feira, 4 de abril de 2012
i can feel the warning signs running around my mind

Um mês e nenhuma música na lista de reprodução, nenhum rascunho no caderno.
Já acreditava que estava imobilizada pelo enredado de coincidências que me levavam a crer em algo maior. E que costumavam me levar a algum lugar.
Eu não estava mais me movendo. Estava parada, contra o vento, e os fatos eram apenas atirados contra minha face. Me sentia ludibriada pelas sincronicidades que me guiavam, abandonada a própria sorte pelo destino. Estava determinado, era o fim deste blog e dessa ideologia boba que enfiei na minha vida. Foi quando recebi duas visitas incomuns.
A primeira visita chegou com um barulho repetitivo na janela: um beija-flor azul. Havia se arriscado em um voo apressado para a sala de estar, mas ficou preso e tentava em vão escapar pelo vidro da janela. O mais interessante em suas tentativas frustadas era que ele parecia muito certo e decidido de que sairia por ali, embora estive a poucos centímetros da real saída. Tentei ajudar, mas ao sentir a presença de minhas mãos incertas, o bichinho se encolhia todo tentando se proteger. Aos poucos ele parecia querer desistir, cansado e provavelmente sentindo as dores da última experiência, mas sempre acabava mudando de ideia, o brio reverberando em suas asinhas vorazes pela liberdade. Consegui pegá-lo em minhas mãos e ele finalmente voou para seu destino.
Depois que se foi, refleti. De alguma forma, eu era aquele beija-flor. Estive tão determinada a ir em frente no que achava certo, que às vezes nem percebia que eu só estava insistindo no mesmo: a mesma parede de vidro. Imaginei então quantas vezes eu não estaria batendo a cabeça em alguma janela fechada, enquanto o que eu procurava estava a pouquíssimos passos de mim! E quantas vezes, cansada das minhas tentativas, eu não devo ter clamado por ajuda e quando ela veio eu me esquivei com medo de me machucar?
Ali estava eu, reclamando do destino, quando na verdade o erro estava em mim mesma, por insistir em algo que eu já havia sentido que não daria certo.
A visita do beija-flor era um alerta. Enfim eu não tinha sido abandonada, acabava de levar uma grande lição da vida. Mesmo assim, fui cética. Achei que mais uma vez estaria acreditando em falsos sinais, vendo ligações onde não havia, poetizando fatos corriqueiros.
Então a noite recebi a segunda visita. Para entendê-la, preciso explicar desde o início. Todas as vezes em que me sinto triste e desesperançosa, gosto de assistir o filme "Sob o sol de Toscana". Neste filme, existe uma história que eu gosto muito, contada por uma das personagens mais ou menos assim: segundo ela, quando era criança, vivia correndo atrás de joaninhas no jardim, mas nunca conseguia encontrá-las. Um dia, em uma das suas buscas, ela acabou adormecendo, e quando acordou havia milhares de joaninhas no seu vestido.
Como de praxe, eu assisti esse filme essa semana, esperando acender alguma esperançazinha para meu dia seguinte. Imaginem então minha surpresa quando recebi a segunda visita do dia: uma joaninha, pousada em minha mão. Era a vida me dizendo que eu não precisaria me machucar tanto em busca da minha felicidade. Ela iria acabar me encontrando.
Quando fui beija-flor, pedi por ajuda mas não enxerguei. Foi preciso que esse sinal de boa sorte pousasse em mim, para eu me sentir confiante em voar para fora da minha janela. Sincronicidade, eu disse. E sorri.
domingo, 15 de janeiro de 2012
e eu que luto contra os meus defeitos não havia mais jeito de consertar...

Eu erro. Tu erras. Nós erramos.
E por termos aprendido desde cedo os não e sim da vida, não existe nenhuma pesquisa dizendo quantos erros cometemos por dia, ou qual o raio quilométrico de pessoas que são atingidas por isso.
Não. Errar não é aceitável, muito menos nas estatísticas.
E sobre este terreno você constrói toda sua pequena ditadura do esquecimento baseado no fato de que ninguém pode errar com você. E é cada vez mais fácil tirar aquela pedrinha oportuna do bolso, pra jogar em quem estiver pela frente, magoando seus sentimentos e te fazendo chorar. Com suas lágrimas ninguém pode brincar.
Isso é muito bonito e romântico até o dia em que você erra. E perde muito por isso. É quando você vê desmanchando até a última pedrinha do seu castelinho imaginário de bondade e justiça.
Encara sua face no espelho e se reconhece "um grandessíssimo idiota, humano, ridículo, limitado, que só usa 10% de sua cabeça animal". E sente vontade de abraçar todos seus supostos inimigos, agora que você perdeu sua inocência e virou lobo. Você quer dizer a eles que agora entende. Entende porque saiu do seu confortável papel de vítima de um crime qualquer.
O travesseiro não é mais suficiente para uma cabeça cheia de culpa.
Tudo faz mais sentido no reino de quem tem culpa, porque lá não existe uma linha imaginária que divide bons e maus. Existem pessoas, muitas pessoas. Provavelmente quase todas que você já conheceu. E elas não são piores ou melhores que você. Você só faz parte delas. Lá não existe um código penal. Você só estende, todos os dias, a outra face.
Não existe como desfazer um erro, você só aprende a carregá-lo. E a tentar ser melhor do que era antes. Eu precisei errar, e perder, para aprender a perdoar. E isso não traz orgulho, parabenizações, lição de moral ou medalhas de honra ao mérito. É só questão de compreender, e tentar dormir.
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