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domingo, 27 de novembro de 2011

pesa mais que um hemisfério...


Vai parecer papo de miss. Ou que eu caí inexoravelmente nos clichês mornos de domingo. O fato é que me tenho feito irresponsável, cativa dos silêncios que não pretendem cativar ninguém. Daí vem a época de chuvas, e lá estou eu de novo, presa em mim mesma, ou na ligeira esperança de te trazer pra perto. Eu caça, você caçador.
E nessa perseguição por coisa alguma, a casa fica empoeirada, os papéis a mercê do vento, as roupas por lavar. Estou ocupada demais. Ocupada demais com a guerra aqui dentro. Não tenho dormido, pois tenho medo de sonhar, e tudo que sonho não cresce neste território infecundo. Tudo que sonho permanece como fantasma das coisas que nunca irei tocar. Por fora não. Por fora sou forte, sou cacto. E me rego com minhas próprias lágrimas.
Talvez eu tenha esquecido de te ensinar a me lembrar. Eu não sou boa nisso não. Sou melhor em fazer esquecer.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

só sei dançar com você



Eu entro em casa, jogo a bolsa no sofá e ligo o som. Deixo a música invadindo meu espaço, até o ponto em que eu me estico toda, até alcançar meu âmago, até destrinchar meu humor. Gosto das coisas assim: fluindo. Se elas irão me engolir, ou me deixar dançando pela cozinha, os braços jogados pro ar, nunca sei. Se elas chegam mansinho e me derrubam, ou se já chegam batendo porta, janela, jogando as roupas no chão, paciência. Não tremo mais.
Pela primeira vez eu consigo contemplar o vazio e não me assusto. Estou plena. Olho pela varanda: faz tempos que não chove. Sorrio para mim mesma, como quem diz que sabe exatamente o que se quer dizer. Acho que é o que chamam de sintonia. Enquanto deslizo pelo chão da cozinha, me sinto verdadeiramente livre. Não existe ninguém avaliando meus passos. Nem quem pergunte "por que diabos ela dança?". Eu danço, porque existo. E quero continuar percorrendo a sintonia com meus pés.
Sempre dancei melhor só. Quando criança, adorava colocar um vestido e vê-lo rodar. Observar tudo passando por mim, se movimentando, se aproximando, me englobando, me cativando, me invadindo, até eu perder o controle do próprio corpo e cair. Pouca coisa mudou desde então.
Pra ser sincera, nunca aprendi a dançar em par. Mas sinto que aprender a dançar sozinha é o primeiro passo para se deixar conduzir por outrem. Só de uma coisa tenho medo: que a música acabe antes desse momento chegar. Até lá, continuo girando. Enquanto o mundo girar comigo.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

but my heart is war torn, war torn

"Se tu me amas como eu te amo, Pedro, lute por mim".

Aos 11 anos tive contato com essa frase, de uma chamada semanal da mini-série Os Maias.
Não sei bem o porquê dela me ter cativado tanto, mas sempre me vem a cabeça em horas de reflexão ou distração.
Mentira.
A verdade é que sei, mas tenho vergonha de admitir: é inveja.
Tenho inveja dessa frase. Tenho inveja de quem pode pronuncia-la, tenho inveja de quem pensou em escrevê-la.
Não gosto dela por seu sentido vulgar, a expectativa forçosa, o quê de mulherzice. Gosto da ideia da luta.
A luta, pois, não é uma decisão por conveniência e sua irmã odiosa, convenção. Não tem deveres quanto a coerência, nem respeito ao moralismo. A luta é insensata, impensada, explosiva. É o que traz aos poros o inato. A luta é pura. Puramente humana e ao mesmo tempo, completamente irracional. Assim como eu creio ser o amor.
Por isso, quando lembro dessa frase, tenho inveja. Porque sei que por mais que eu tente, caminhe, vasculhe em todas as gavetas, não conseguiria encontrar essa tal bravura. Nem mesmo lutas literais se fazem como antigamente. O que hoje se chama de guerra, nada mais é que uma valsa coreografada, arranjada, milimetricamente compassada para atingir um fim, devidamente calculado por alguma equação impoética.
Talvez para se conseguir uma luta autêntica, deve-se querer muito. Querer insanamente algo. E daí vejo o quanto estou distante disso. Eu nunca quis muito algo. Meus desejos são usualmente satisfeitos com R$ 4,50 e alguns minutos de silêncio. As vezes eu até tento querer. Mas daí vem alguma coisa em mim que grita que querer não é poder, e eu sempre acho que nunca posso nada. Nunca sinto que tenho direito a poder. O que me leva a aceitar tudo que o vento carrega pela frente e bate na minha cara.
"Lute por mim." O personagem em questão, Pedro, não foi capaz de aceitar o desafio. Como parece que muitos não são. Ele não foi o primeiro. Nessas horas a balança pende para os retornos, os benefícios a longo e curto prazo, os investimentos demandados. O amor descobriu a bolsa de valores. O amor descobriu o pay off. O amor, antes uma luta apaixonada, hoje não passa de uma Guerra Fria.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

vai ver se eu tô lá na esquina, devo estar.




Procura-se. Desço as esquinas seguindo a melodia, as vozes, um pressentimento. Me perco. Dobro as esquinas, contorno a praça, vejo alguém acender o cigarro. É você? Chego mais perto, toco seu ombro. Não é. Sigo caminhando, observando cada beco. Vejo pernas que se afastam, mãos que me largam, olhos de muitas cores e outros de nenhuma, vozes de todos os tons, corpos de todas as formas. Sinto o cheiro, o gosto, a raiva e o prazer. Estendo a mão, me entrego, meu coração bate mais forte.
E não é você. Todo ano, o mesmo. A banda passa. Mas é Carnaval. Que seja.

Nasci com essa busca infindável, me veio como sonho. Foi me destinada como missão ou fardo, através de um rebuliço nas entranhas, uma vontade de correr na chuva. Correr, correr até sangrar. E então estender as mãos e tocar uma face, e saber, e sentir, e sorrir, e chorar e ouvir o sangue correndo, o barulho dos últimos segundos antes de atravessar a faixa de chegada, um alívio, cansaço, o sangue, ensurdecedor. A face que toquei. Eu não consigo vê-la. Estou entorpecida de adrenalina e vitória, eu cheguei, acabou, o sangue bombeando, tum tum tum, gritos. A face! Esqueço de olhar. Droga.

Desço a rua e sento na calçada de frente para o mar. Mais um Carnaval. Deixo a imensidão me invadir. Toda vez que olho o mar, parece que você está aqui. Quero chorar.
Será que você também olha o mar e sente? Será que também senta com o olhar dos perdidos, e se pergunta que tipo de jogo é esse que não se pede pra entrar, que não se sabe como jogar, mas que você daria tudo para vencer? Será que tens me procurado em todos os livros e bebidas baratas, em seus vícios e nas páginas de jornal, em cartas que não são minhas, em corpos que não são meus, nessa luta idiota para sentir o toque das minhas mãos na sua face? Ou me deixou logo de lado com seus outros devaneios, se rendendo ao que é fato pelo fato, é carne e sangra, a vida como ela é?

Minha esperança é que você possa um dia ler isso e compreender que essa sensação, esse peso que lhe revira o estômago, essa inquietude antes de dormir, essa vontade de algo, é você procurando por mim. Assim, saberei que te encontrei e ficarei em paz com a minha missão. Eu sempre soube, eu sempre estive, e nunca neguei.
Estendo minhas mãos para o mar, tento te tocar. Mas sigo no escuro, como um cego tateando os ecos do nada.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

a emoção acabou, que coincidência é o amor, a nossa música nunca mais tocou...



Em minhas viagens quando pequena, abatia o tédio com uma brincadeira chamada "máquina fotográfica". Nela, eu procurava alguma imagem pelo caminho, seja uma árvore, uma nuvem ou um passarinho, focava minha visão já meio míope nela, e depois fechava os olhos, procurando lembrar de cada detalhe, em vivas cores, do que eu havia "fotografado".

Eu cresci e me esqueci de desbrincar, e aí as imagens, ou fotografias do que vivi, ainda são coletadas com todas as suas minuciosidades e histórias. É como se cada detalhe, por mais que tenha ficado pelo meio da estrada, ficasse registrado profundamente em um álbum de memórias. Memórias da minha vida. E talvez por isso, por lembrar demais do que se vive, eu passe a dar mais valor aquelas pequenezas. Como se eu desse mais importância aos momentos que eu vivi do que meus coadjuvantes. Pois fica registrado em mim aquilo que se facilmente perde no vento, um leve sorriso, um jeito de tamborilar na mesa, um jeito de mexer a cabeça quando contrariado. Os segundos antes de um beijo, o princípio de um choro, um olhar de adeus.

E talvez eu seja mesmo uma grandessíssima tola, por encarar minha vida como um conto, por não compreender que se possa sentir e des-sentir, querer e des-querer, amar e desamar. Nunca compreendi a fugacidade das pessoas. Nunca compreendi as pessoas, na verdade. E toda vez é o mesmo do mesmo. Como se eu simplesmente não pudesse apagar o que eu já tivesse escrito. Como se não houvesse outro jeito de me livrar das fotografias senão jogando-as para o fundo impiedoso de uma lixeira.

E talvez seja por isso também que eu tenha que agir como esse furacão que sou, rasgando as fotografias que registrei, apagando todos os vestígios do que um dia pareceu existir e foi em vão. Como se eu não pudesse deixar meu livro com aquelas páginas sem sentido, como se precisasse destrui-las, maldizê-las. E mentir baixinho, para mim mesma, todo dia, até se tornar uma verdade: nunca aconteceu. Nunca aconteceu. Nunca aconteceu.