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domingo, 28 de dezembro de 2008

eu quero ver você dançar em cima de uma faca molhada de sangue


Suja. Completamente suja. Só esperando as cortinas se fecharem. Só.
Tudo isso por ter sido extremamente humana. Impossivelmente humana. Por ter exposto a carne ao luxo e ao lixo. Por ter me deixado sangrar, e sentido a dor dos mortais. Dos vis e medíocres mortais. Com seus chapéus de jornal em tempestades hostis.
Procrastinei conversas, desperdicei solstícios, me larguei aos vícios. Me emaranhei em caminhos evasivos, em fugacidades sedutoras, no nada. Fingi a todo tempo ser a protagonista do romance, me permiti dançar. Eu gosto do estrago.
No último ato, tropecei. Fui fraca: me deixei ter esperanças. Por consequência, abri cada chaga, minuciosamente, sentindo-as uma a uma. Parei diante do meu muro de lamentações, mas não chorei. Era tão triste que até as lágrimas se assustaram.
Estou suja, e ninguém pode ver meu rosto. Se ao menos eu pudesse chorar. Minha blusa é branca como a página em que estaria descrito meu futuro. Espero a sétima onda.
É mentira dizer que hoje eu sou mais forte que ontem. Eu só aprendi a varrer os cacos.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

ja, es muss sein!


Eu sei que você vai estranhar ao ler isso. Mas você já devia imaginar que durante aqueles pesados momentos de palavras vagas existia muito mais a ser dito. Nunca reclamei da sua fugacidade, embora ela despertasse sempre a aflição de um suposto fim irreconhecível. O fato é que depois de um tempo, me acostumei com sua presença, e já aguardava seus passos lentos ansiosa, espiando por cima dos ombros você me surpreender. De vez em quando você me dava uma rasteira, eu tropeçava, enquanto você só sorria e dizia “é para você acordar”. Um dia acordei, e não te vi mais. Espero que não se importe com a desordem dos fatos, ela combina com sua personalidade atemporal e sua blusa cinza. Se eu te escrevesse assim bonitinho, estaria traindo o estado em que está minha mente, então deixei tudo do jeito que sempre foi: bagunçado, jogado, espalhado pela folha. Você sabe que não sou organizada. Na verdade, você sabe demais sobre mim, e não sei mais dizer se isso é bom ou ruim. No início era feliz e medroso, como os cincos segundos para o ano novo: nunca se sabe o que te aguarda após as sete ondas, mas pulamos de alma lavada e com esperança de bons tempos. O vento que passou, no entanto, levou você e deixou meu suspiro. Sumiu com o sol e me deixou na esquina, esperando seu olhar debaixo de chuva e blues. E agora, esse é o final desse filme noir? Ainda aguardo uma reviravolta, você puxar meu braço enquanto eu ando distraída, me falar qualquer coisa sobre nada e me engolir com esses seus olhos de maré alta. Porque você é essencialmente o que escrevo, a definição bruta de sincronicidade. É a fusão do meu preto e branco, quente e frio, céu e inferno. É a insustentável leveza da minha existência. Você sou eu. E depois de fazer tantas coincidências convergirem para um caminho só, aquela rua por onde andamos os dois de mãos dadas ébrios, você não pode me deixar assim. Você me deve uma, acaso.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

da incertidumbre das mesmas mãos que as suas.


O se pôr de um porém se desata e gira em um não-ser-será, ciranda louca de finais fecundos.

E se me tapa a boca com palavras rasas, me atormenta com seu riso sério, me confunde os passos de desejos tímidos, me deito ao vão entre tormentos tantos.

Não sou a fera desses olhos ébrios, nem ando junto a mansidão dos pássaros. Tropeço em mim nesses anseios anchos, não disse não temendo a teia tênue, escrevi sim entre paredes pares.

Arrependi,lá tive dó de mim. De pouca fé fez-se do homem barro, de cada si fez-se uma clave sol, segui bemol pela estrada estreita.

Neguei o compasso que esse teto baila, na debandada fiz da mente lixo. Fugi de um eu, perigosa arma, caí no breu da dúvida instaurada,me esvaí em vírgulas no chão de acasos.

Esse texto é sobre qualquer coisa, ou uma. Esse texto é sobre porra nenhuma. Dormi.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

supermassive black hole

Nota: o sorriso da Monalisa me fascina muito pouco perto do olhar melancólico com que a moça da mesa ao lado fita seu drinque amargo. Aprecio as cenas coadjuvantes, um romance qualquer cuja trilha sonora inclua as explosões da Segunda Guerra Mundial. De fato, não escrevo sobre temas universais. A quem compreender o verdadeiro tema sob esses lençóis de seda: silêncio. E se me afirmarem, desminto.




Se beijaram tímidos. Eram desconhecidos enfim, como na primeira vez que ele pôde tocar suas mãos trêmulas. No entanto, os batimentos rápidos eram os mesmos, e gritavam ocultos por dois rostos impassíveis. Rostos que já testemunhavam o movimento dogmático dos ponteiros. Ponteiros que já testemunharam os batimentos rápidos outrora, em rostos exaustos e satisfeitos.

Os sons do relógio se fundiram aos sons dos dois corações ofegantes em sonata única, como os corpos se fundiam no escuro do quarto. Restavam poucas horas, apesar da imensidão dos segundos. Englobavam carne, suor e mundo, deixando apenas vertigem.

Um segundo transcendeu a existência. Explosão.

Tudo se tornou opaco. Os objetos dançavam valsa e se desfaziam, até que a última coisa que ela pudesse enxergar fosse o olhar sorridente dele. Se ela soubesse o quanto este olhar dilaceraria seu peito toda vez que fosse recordado, teria vivido de olhos fechados.

Foram engolidos por aquele buraco negro. Nele, estavam protegidos do tic-tac nervoso dos ponteiros, sedentos por bombear a realidade mais forte do que aqueles pulsos poderiam suportar.

As imagens retornavam lentamente para as vistas embaçadas dela, quando ele disse.
E aquelas poucas palavras saíram trôpegas de sua boca, e flutuaram pelo teto de forma insustentável. Naquele momento, até a respiração dela se calou: o silêncio de quando se tem impossivelmente muito a dizer. O mesmo silêncio que os separava agora de um final feliz.

Estavam frente a frente, e se procuravam desesperados naqueles olhares perdidos. Ela, uma resposta. Ele, um desafio. Todas as teorias que ela guardava sobre o universo como um fluxo elipsóide de momentos se desvaneciam naquele adeus.

Os ponteiros gritaram por mais uma vez como aquilo era absurdo. Foi quando perceberam que já haviam nadado demais contra a corrente. E escorregaram, derrotados, pelo vazio impiedoso da ampulheta.

Não existe palavra mais bonita e triste do que saudade.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

cos baby,after all...you'll never forget my name


Caminhando vi o vazio na rua. Um nada com escombros do que pretendia ser. Ocupava o espaço como suspiro em silêncio. Por dias passei por essa rua. Fingi ver, e nada via.

Não me lembro do que havia naquele lugar. Não o contemplei em seus dias de vida vã.
Quantos algos já deixei de admirar? O que me escapa a essas vistas míopes? Por quantas vezes só enxerguei o vulto da dança, as poças da chuva, o close para o fim? Quantas pessoas deixei para trás, nessas minhas caminhadas de ruas tortuosas, e só vim a perceber quando já estava distante demais para conseguir enxergar?

Não quero ser o que um dia foi. Não quero que se lembrem do meu haver quando eu já tiver ido.
Não quero lágrimas que correm pela vergonha de serem tão distraídas.
Por isso escrevo. Para que, ao contemplarem o vazio, escutem pelo menos os ecos do que já pensei. Não busco, embora, a pedra filosofal. Apenas temo não ter alterado em nada a órbita dos que passaram por minhas ruas.
Não existo por existir. Não percorro minha rota assiduamente, sem alterar o nível das marés. As vezes até exagero: quero causar um big-bang. Um dilúvio. Um apocalipse. Quero marcar. Não saio da sua vida à francesa.
Ao soar dos violinos,tudo que existe se resume a pó. Que eu me reste então como poeira estelar.

domingo, 20 de abril de 2008

clocks


O que o passado lhe concede, além de tombos e glórias, navega em infinito denso de recordações. Você nunca será tão jovem quanto o retrato em sua parede.
O momento que se desatou sublima entre as palavras ditas. E o que se viu, e o que se sentiu, e o que deixou de acontecer, não retornará para seus braços ansiosos. Se foi para longe, para bem perto de sua mente.
A felicidade de outrora cega as vistas de quem espera a volta. O passado flutua falsamente alegre e deixa cair quem prefere o segurar. Os que tentam carrega-lo, só tornam pesado o fardo em suas costas. Confiar no passado é subestimar a vida.
O agora é uma dádiva, o presente de alcançar algo tangível. A oportunidade de escolher de novo, tentar de novo, começar de novo. Não se mede por régua felicidades novas: cada felicidade acompanha o momento, e é bem-vinda seja quando for. Pense bem. Se tudo que acontecesse, se repetisse infindamente, nada seria especial. Todas as fotografias coloridas se desbotariam, sem emoção. A vida seria em preto e branco.
Para isso essas cores diferentes, esses sabores diferentes, esses sons diferentes. Para isso esse caleidoscópio de opções. É a vida te seduzindo a ir em frente e experimentar. O gozo que seguirá ao instante após será para sempre teu, e ninguém jamais poderá roubar isso de você.

sábado, 12 de abril de 2008

monstros debaixo da cama



Todo mundo tem seu monstro debaixo da cama. Quando você começou a se entender por gente, ele com certeza apareceu para você. Estava encolhido em algum canto empoeirado próximo a parede. Era pequeno, mas assustava. Ao vê-lo, você saia correndo pra cama segura e confortável dos seus pais, e lá recebia o sono tranqüilo dos inocentes.
Um pouco mais tarde, depois da primeira decepção no colégio, você viu esse monstro de novo e ele estava maior. Assim como suas primeiras lições de vida.
Seu monstro nunca te deixou. Toda vez que você se deitou para dormir e começou a refletir sobre seu dia, ele estava lá, te esperando. É disso que o monstro debaixo da sua cama se alimenta: pensamentos. Desapontamentos. Tristezas. Incertezas. Indecisões.
E o grande erro dessa historinha idiota, não foi você alimentar seu monstro.
O pior de tudo, é que agora, você nem o percebe.

domingo, 6 de abril de 2008

dia blues


O grande problema das comédias românticas é que, não importa o que aconteça, a gente sempre espera um final feliz.

sexta-feira, 21 de março de 2008

should I stay or should I go?


Eu poderia escolher, sem piscar, a segurança monótona ao topo do Everest. Testo limites a cada nova turbulência do meu mar de (des)oportunidades, e minhas parcas escolhas só me trouxeram dores, embora mestras.
A verdade é que, das mil e uma regras que nos ensinam, com exceção da "não mexa nas tomadas", poucas possuem utilidade prática. Ao chegar da tempestade, tudo que você terá em mãos será um barco de papel e um guarda-chuva de pontas quebradas.
Ninguém te ensina a hora de dizer não.
Não há alertas de quando já é demais.
Como saber se já alcançamos o limite?
Se os antigos navegantes pensassem em limites, haveria monstros em nossos mapas. Mas e se existissem?
E se ao avançar corajosamente um passo além do que deveria, você descobrisse que tudo que te espera é o vão?E se a Terra na verdade fosse um plano finito?
Valeria a pena ter arriscado?Mesmo se você se estrepando pelo chão duro e frio da realidade? Minha alma seria menor, por não achar que valeria a pena?
Você seria covarde por preferir ficar a salvo atrás da porta, mesmo se depois dela esperasse impaciente a felicidade eterna?
Qual é a regra, então? Nunca tentar?Sempre arriscar? Aguardar uma resposta cósmica?Um sinal metafísico do Universo?
Se todos te falarem que é burrice...Se Galileu acreditasse em todos?
Eu gostaria muito de poder navegar em águas calmas por pelo menos uma vez.Mas penso que aprecio o risco tortuoso dos raios no céu. Que não perguntam o que devem ou não atingir.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

o homem, Nietzsche e a chuva


Um exemplo de que a vida é, por muitas vezes, poética.



Não era domingo
Para aquele homem
E o cachimbo.
Carregava um livro
Aquele homem e seu cachimbo.
Para além do bem e do mal
Era somente
Nietzsche, a noite
O homem e o cachimbo
Choveu enfim.
E era somente
A chuva e um menino.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

meu espaço amostral infinito


O que essa xícara de café me diz, ignorando as intervenções de Saturno,não é segredo:cansaço. E eu já não sei se foi no terceiro ou quarto gole, ou em que encruzilhada do caminho eu me despedi de mim.
A necessidade de agora chegou êxtase,lenta e sorrateira. Deslizava entre a nebulosidade que fugia da minha xícara. Ainda existo enfim, embora como visita longínqua.
Ser exato é correto e sucinto. Paixões, apesar de sucintas,nem sempre são corretas. São inexatas, mas eu as amo.
Existe algum elo ao qual posso me atar?Alguma forma de juntar esses dois inteiros no meu mesmo pequeno espaço, compartilhado com essa xícara de café?
Sou ambígua e assim prefiro. Ainda não compreendi ter de viver na mesquinhez de solitárias escolhas. Quero escorregar na linha-tênue-entre-razão-e-emoção. Sempre apreciei a vertigem.
Quase-ser é dizer que algo me falta. E apesar de "quase" ser rima rica com "fase", quase-ser é minha pobreza. Meu dogma.
Porém a visita longínqua, a necessidade fugaz, se desfez mórbida junto ao vapor que saía da xícara. O café esfriou.

desenterrando


Essa foi a primeira resenha que eu fiz na escola. Até hoje não sei o que significa isso direito.


Nas coxias: as sete quedas de Aurélia
Olívia Barbosa Ferraz de Andrade

Percorrendo as letras de Senhora como leitora assídua,não mais passageira,enveredei-me em divagações costumeiras. Em uma delas, ousei despir a obra de seu manto incorpóreo e de particularidades filhas das tentações de Alencar,próprias dos artistas que,diante de suas obras,apagam ou avivam algumas pinceladas. Prossegui minha leitura sobre essa ótica simplista mas,no mínimo, interessante. Ao final,pasmada, perguntei: o que restou de Aurélia, senão réplica fiel de nossas almas?Apresento-lhes então a grande comédia da vida, na qual todos nós desempenhamos nossos papéis com espetacular perícia.Nela sofremos o que decidi chamar de “as sete quedas”.
Como todo e qualquer ser humano, Aurélia nasceu boa de espírito. Esta qualidade,porém,se desgastou gradativamente com os atritos das primeiras repressões e foi destituída de toda forma com as primeiras quedas sofridas. A primeira queda é,apenas,o ensaio para outras subseqüentes. A de Aurélia, e a cito como quem cita você leitor ou qualquer outro conhecido,ocorreu pelo que muitos aclamaram e poetizaram: o amor.
Aurélia amou Seixas. E,o amando, entregou-se completamente, se expondo a todas as conseqüências de sua redenção. Alcançando o apogeu do dito ato sublime, deparou-se com as armadilhas byronistas e, numa delas, sofreu sua segunda e consecutiva queda: a traição.
Nesse ato, sob doloridas verdades, poucos prosseguem esperançosos. Outros criam uma autodefesa, abandonando o foco natural, o coração, para concentrar-se no cérebro, onde residem as faculdades especulativas do homem.
É completamente inadmissível ao homem expor sua vertigem ao público. As forças que o restam servem para arquitetar seu plano para erigi-lo novamente, recuperando seu prestígio ante a sociedade. A sua terceira queda é conseqüência de uma sórdida vaidade, alimento para o ego. E, junto a ela, projeta-se sua quarta queda,também constituinte do seu plano de recuperação da aparência: a vingança.
A vingança é o desejo extremo de se sobrepor. Passa a existir a necessidade de ver o outro prejudicado, omisso. Destila-se sarcasmo nas entrelinhas, busca-se subalternizar e aniquilar o outro ser. O placebo que ao mesmo tempo em que alivia, sufoca.
A quinta queda precede ao raciocínio calculista: a mentira. Completa-se então o plano perfeito para mascarar qualquer subsídio de fraqueza. A mentira manipula,disfarça,encobre e reforça todos os outros elementos. Faz o pobre passar-se por rico. O infeliz acreditar ser feliz.
O objetivo principal de tal estratégia é evitar novas derrotas. Tudo passa a ser um grande jogo e ninguém quer perder. Não nos ensinam a aceitar o prazer da competição. Ninguém se lembra dos que quase conseguiram. Ao chegar nesse ponto da trama, o indivíduo acredita ser imune a tudo, imbatível. Desdenha dos inimigos.
Porém a maior de todas as guerras está por vir: a guerra contra si mesmo, contenda criada pela própria consciência. O indivíduo toma conhecimento de quão atroz foram seus atos e se sente usado por seus íntimos sentimentos. Funde-se causa e vítima. Seus desejos, agora vis, tornam-se fardos que novamente o força a descer do topo e o esmaga sob a dura realidade.
Nos últimos atos dessa magnífica peça alguns pedem perdão e se libertam: heróis. Uns preferem deixar aflorar o orgulho e rancor, mergulhando em uma inexaurível queda livre: humanos.
A vida possui, porém, algumas diferenças do espetáculo de Aurélia. Nem sempre ela participa de axiomas. Não compartilha finais felizes e eternos. Mas apreciemos José com sua corja de primatas amestrados. Não lhes parece familiar?
“Sejamos desgraçados, mas não ridículos. Tudo, menos dar minha vida em espetáculo a este mundo escarninho”.


liberdade, liberdade


Sou um corredor de portas abertas. Você tem todo o direito de entrar. E todo o direito de sair. Todavia, eu continuo morando em mim.O vai-e-vêm dos transeuntes não me causa sensação definida. Assim como as ondas do mar me tranquilizam, me causam náuseas. Em determinado momento, cansei de sentir saudade. Um erro lamentável, não minto: às vezes eu fecho a porta e ninguém entra.Tudo que sobe, desce. Tudo que vai, volta? Não existem leis para chegadas e saídas. Existe um direito: ir e vir, e a pesarosa liberdade que a América representa.Não sei se me sinto muito melhor do lado de fora de minhas portas. De certa forma, penso que sentiria uma solidão infinda, em proporções populacionais. É um pecado, mas tem dias que eu acordo, e me simpatizo com a ditadura: só pra ter alguém a ouvir. Lógico, é mais uma idéia desconexa matinal, que logo passa depois do café.É paradoxal, eu sei. Receio a liberdade, e a ofereço gratuitamente por minhas portas. Eu não disse que faria sentido. Tenho mil justificativas para explicar minhas atitudes incoerentes. Dica: se são justificativas, não merecem ouvidos.Não temo minhas visitas. Eu tenho medo é de errar.

(de uma conversa entre amigas)

primeiras impressões


“É que às vezes eu escrevo”. Não foi bem um desabafo, minhas mãos não suaram e nem senti meus ossos doerem. Era mais acanhado, meia confissão-meia vergonha. Não apliquei nenhum julgamento ao ato. Qualquer opinião pessoal destruiria qualquer possibilidade de diálogo, eu estava no meu limite de timidez.
Começou cedo, sob a forma de vontade. Sempre tive mais intimidade com o lápis do que com meus primeiros passos (convenhamos habilidades físicas nunca foram lá minhas virtudes). Foi uma poesia infantil, saída de um reino imaginário ou de qualquer outra terra mágica descrita em livros de psicologia moderna. A vontade se tornou constante, passou a necessidade, chegou a ebulição. Depois foi se acalmando, visitando quinzenalmente, mensalmente, igual amor antigo.
Não é pecado, não é proibido, não é feio. Mas de certa forma, escrever sou eu. Me sinto nua em minhas palavras, por isso o medo. Por isso me cubro com todas as expressões que posso, tentando esconder minhas vergonhas com vírgulas e parágrafos. Tudo que escrevo, eu vivi, pensei, falei, amei. No entanto me tornei tão egoísta que não permito a quem lê compartilhar isso comigo. Não sei definir se isso é bom ou ruim. Talvez seja horrível. Aprecio a mutabilidade das coisas, enfim. Mas me despir assim, de vez, foge aos meus princípios literários. Se pudesse resumir tudo isso, diria: entenda como quiser. E fim de conversa.