
Suja. Completamente suja. Só esperando as cortinas se fecharem. Só.
Tudo isso por ter sido extremamente humana. Impossivelmente humana. Por ter exposto a carne ao luxo e ao lixo. Por ter me deixado sangrar, e sentido a dor dos mortais. Dos vis e medíocres mortais. Com seus chapéus de jornal em tempestades hostis.
Procrastinei conversas, desperdicei solstícios, me larguei aos vícios. Me emaranhei em caminhos evasivos, em fugacidades sedutoras, no nada. Fingi a todo tempo ser a protagonista do romance, me permiti dançar. Eu gosto do estrago.
No último ato, tropecei. Fui fraca: me deixei ter esperanças. Por consequência, abri cada chaga, minuciosamente, sentindo-as uma a uma. Parei diante do meu muro de lamentações, mas não chorei. Era tão triste que até as lágrimas se assustaram.
Estou suja, e ninguém pode ver meu rosto. Se ao menos eu pudesse chorar. Minha blusa é branca como a página em que estaria descrito meu futuro. Espero a sétima onda.
É mentira dizer que hoje eu sou mais forte que ontem. Eu só aprendi a varrer os cacos.

