
Se beijaram tímidos. Eram desconhecidos enfim, como na primeira vez que ele pôde tocar suas mãos trêmulas. No entanto, os batimentos rápidos eram os mesmos, e gritavam ocultos por dois rostos impassíveis. Rostos que já testemunhavam o movimento dogmático dos ponteiros. Ponteiros que já testemunharam os batimentos rápidos outrora, em rostos exaustos e satisfeitos.
Os sons do relógio se fundiram aos sons dos dois corações ofegantes em sonata única, como os corpos se fundiam no escuro do quarto. Restavam poucas horas, apesar da imensidão dos segundos. Englobavam carne, suor e mundo, deixando apenas vertigem.
Um segundo transcendeu a existência. Explosão.
Tudo se tornou opaco. Os objetos dançavam valsa e se desfaziam, até que a última coisa que ela pudesse enxergar fosse o olhar sorridente dele. Se ela soubesse o quanto este olhar dilaceraria seu peito toda vez que fosse recordado, teria vivido de olhos fechados.
Foram engolidos por aquele buraco negro. Nele, estavam protegidos do tic-tac nervoso dos ponteiros, sedentos por bombear a realidade mais forte do que aqueles pulsos poderiam suportar.
As imagens retornavam lentamente para as vistas embaçadas dela, quando ele disse.
E aquelas poucas palavras saíram trôpegas de sua boca, e flutuaram pelo teto de forma insustentável. Naquele momento, até a respiração dela se calou: o silêncio de quando se tem impossivelmente muito a dizer. O mesmo silêncio que os separava agora de um final feliz.
Estavam frente a frente, e se procuravam desesperados naqueles olhares perdidos. Ela, uma resposta. Ele, um desafio. Todas as teorias que ela guardava sobre o universo como um fluxo elipsóide de momentos se desvaneciam naquele adeus.
Os ponteiros gritaram por mais uma vez como aquilo era absurdo. Foi quando perceberam que já haviam nadado demais contra a corrente. E escorregaram, derrotados, pelo vazio impiedoso da ampulheta.
Não existe palavra mais bonita e triste do que saudade.


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