
Caminhando vi o vazio na rua. Um nada com escombros do que pretendia ser. Ocupava o espaço como suspiro em silêncio. Por dias passei por essa rua. Fingi ver, e nada via.
Não me lembro do que havia naquele lugar. Não o contemplei em seus dias de vida vã.
Quantos algos já deixei de admirar? O que me escapa a essas vistas míopes? Por quantas vezes só enxerguei o vulto da dança, as poças da chuva, o close para o fim? Quantas pessoas deixei para trás, nessas minhas caminhadas de ruas tortuosas, e só vim a perceber quando já estava distante demais para conseguir enxergar?
Não quero ser o que um dia foi. Não quero que se lembrem do meu haver quando eu já tiver ido.
Não quero lágrimas que correm pela vergonha de serem tão distraídas.
Por isso escrevo. Para que, ao contemplarem o vazio, escutem pelo menos os ecos do que já pensei. Não busco, embora, a pedra filosofal. Apenas temo não ter alterado em nada a órbita dos que passaram por minhas ruas.
Não existo por existir. Não percorro minha rota assiduamente, sem alterar o nível das marés. As vezes até exagero: quero causar um big-bang. Um dilúvio. Um apocalipse. Quero marcar. Não saio da sua vida à francesa.
Ao soar dos violinos,tudo que existe se resume a pó. Que eu me reste então como poeira estelar.


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