Saudade é doença sorrateira. E mata a gente, morena.
Se saudade tivesse antônimo, felicidade era pipoca em bilheteria de cinema. E arco-íris teria 32 bits.
Todos os escritores já cantaram como é lindo recordar. Descreveram barrocamente as maravilhas de tirar a poeira dos livros e de sentir cheiro de infância. Mas ninguém lembra o alívio morno que é esquecer.
Receita para esquecer é tônico capilar: parece simples, mas não funciona. E aí a gente se meleca todo achando que vai dar certo, mas acaba se descabelando tentando.
Pois não há mandinga, ar fresco ou pinga que ajude a não lembrar. Muito menos Santo Esquecimento das Dores. E a penitência é das bravas: quanto mais se resolve esquecer, mais a lembrança te persegue, estampando a cara em painéis de neon.
Lembrança é tudo que não existe mais e não sabe disso. Daí fica se movimentando igual membro amputado, dado tapas e afagos na gente. E ainda te deixa amarrado no pé da cama, implorando para ela voltar e te libertar. Lembrar é pura ilusão de ótica: você só enxerga a parte feliz.
Se esquecer fosse brincadeira, perdoar era unidunitê. Como não é, a gente fica feito bobo, correndo pra lá e pra cá, tentando catar lembrança no ar e segurar. E eta bicho arredio!
Pois se eu pudesse esquecer, todos os meus textos seriam coloridos. As palavras ririam soltas no papel. Obviamente, não choveria tanto em mim. Ou choveria: confete e serpentina. E todo dia seria carnaval. Porque carnaval, seja ele como for, passa na avenida e arrasta tudo com ele. Sua recordação parece tão distorcida da realidade que reside num universo paralelo, longe demais para machucar.
Se eu pudesse esquecer, celebraria meus finais com champanhe. E todo o meu adeus viraria samba-enredo pro meu coração desfilar.
Se saudade tivesse antônimo, felicidade era pipoca em bilheteria de cinema. E arco-íris teria 32 bits.
Todos os escritores já cantaram como é lindo recordar. Descreveram barrocamente as maravilhas de tirar a poeira dos livros e de sentir cheiro de infância. Mas ninguém lembra o alívio morno que é esquecer.
Receita para esquecer é tônico capilar: parece simples, mas não funciona. E aí a gente se meleca todo achando que vai dar certo, mas acaba se descabelando tentando.
Pois não há mandinga, ar fresco ou pinga que ajude a não lembrar. Muito menos Santo Esquecimento das Dores. E a penitência é das bravas: quanto mais se resolve esquecer, mais a lembrança te persegue, estampando a cara em painéis de neon.
Lembrança é tudo que não existe mais e não sabe disso. Daí fica se movimentando igual membro amputado, dado tapas e afagos na gente. E ainda te deixa amarrado no pé da cama, implorando para ela voltar e te libertar. Lembrar é pura ilusão de ótica: você só enxerga a parte feliz.
Se esquecer fosse brincadeira, perdoar era unidunitê. Como não é, a gente fica feito bobo, correndo pra lá e pra cá, tentando catar lembrança no ar e segurar. E eta bicho arredio!
Pois se eu pudesse esquecer, todos os meus textos seriam coloridos. As palavras ririam soltas no papel. Obviamente, não choveria tanto em mim. Ou choveria: confete e serpentina. E todo dia seria carnaval. Porque carnaval, seja ele como for, passa na avenida e arrasta tudo com ele. Sua recordação parece tão distorcida da realidade que reside num universo paralelo, longe demais para machucar.
Se eu pudesse esquecer, celebraria meus finais com champanhe. E todo o meu adeus viraria samba-enredo pro meu coração desfilar.



