As lembranças mais vívidas que tenho de minhas andanças são daqueles instantes em que o ônibus deixa devagar a estação e minhas reflexões inundam o espaço entre o chegar e partir.
Aquele aperto no peito de uma saudade antecipada, uma chegada sorrateira da falta que não existia há poucos segundos atrás.
Meu sentimento é que vou deixando ali, em câmera lenta, pedacinhos do meu coração, que vão caindo em cada esquina que dobra meu adeus. Alguns pedacinhos ainda consigo rever, recolher do chão, reajuntar desajeitados. Outros sempre carrego coladinhos com a saudade aqui no peito. Mas outros sei que ficarão por ali, pelas estradas que dificilmente passarei novamente. Caminhos perdidos pelo tempo, pela dor ou pelo desencontro, dos quais só levo memórias que não pesam na sacola.
Minha esperança é no meu chegar receber um tantinho que seja de algo para preencher os meandros cavados pelas lágrimas da despedida. Ou que alguém me ligue e diga que encontrou um pouquinho de mim por aí, perdido e sem rumo, e que achou por bem devolver.
E que eu vá carregando assim meu coração andarilho, até que um dia, remendado e cansado, ele aporte tranquilo no cais que deveria estar.



Um comentário:
Belo texto, Lih! Me deixou com saudades das viagens de ônibus...
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