segunda-feira, 23 de abril de 2012
e eu vou lá, que o mar é destino desaguar
Ninguém pergunta ao mar a razão de ter água demais até ele tentar roubar seus pés na areia ou destruir sua casa. Ninguém questiona sua força até ele se revoltar ou te chamar para perto. Ninguém. De longe sua imensidão entorpece, um azul profundo pincelado com gotas de sol. A uma distância segura, o mar é capaz de se fazer apaixonar: calmo e submisso, acolhe seus olhos magoados da areia e os aplausos da platéia. De perto não. De perto é muita água turbulenta brigando entre si, redemoinhos confusos e alguns vazios que ofendem as promessas de navegação. De perto dá medo. De perto é intenso demais.
Ao contrário de muitos, me apaixonei pelo mar em ressaca. E desde então cenas rotineiras como o café no balcão da padaria ou revistas na banca de jornal ganharam cores de Almodóvar. Eu vejo com intensidade, e escrevo forte até sentir as marcas do papel na minha pele. E eu sinto. Sinto muito. Sinto até transbordar por todos os poros, até sentir o sangue quente doer os ossos e o estômago dar piruetas. Sinto tanto que nem cabe em mim, a ponto da maior parte sair pelos olhos. Água e sal que ninguém quer navegar.
De longe soa poético. Chega até a atrair, cativar, entreter. Mas de perto não. De perto dá medo. De perto é intenso demais.
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Um comentário:
Seria só mais um texto, se a autora não fosse você. Ainda consegue me surpreender como há 11 anos atrás.
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