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quarta-feira, 11 de março de 2009

pra falar a verdade, às vezes eu minto: tentando ser metade do inteiro que eu sinto.


Quando eu era criança e questionava o mundo com curiosidade primaveril, me indagava se talvez o que víssemos não fosse de fato a realidade. Pensava eu que nossa visão tivesse sido programada para pregar algumas peças, como ver uma árvore no lugar de uma pedra. Ou que nosso mundo fosse todo cinza e feio, mas nossos olhos nos apresentassem uma bela paisagem.

Apesar de minha visão ser endossada pela ingenuidade dos meus poucos anos, hoje eu percebo que não estava de todo errada. Na verdade, eu estava em meu primeiro contato com o significado da mentira. Ora, o que é a mentira, senão uma venda para nossos olhos?

A mentira pode alterar todos os nossos sentidos, de forma que mesmo que se toque ou cheire, não percebemos o que há por trás de seu véu. Sua destreza promete carregar o fardo em nossos ombros. Suas mãos quentes e ásperas escondem nossas lágrimas em algum canto de nossa mente, e sua voz firme nos sussurra: feche os olhos, não aconteceu.

A partir daí tudo recebe uma estranha e fingida leveza. O céu se abre em falsos tons de azul. Não há como negar que, se pudéssemos, viveríamos ali, naquela verdade inventada, onde os problemas se disfarçam de cachoeiras e a tristeza é apenas uma chuva de verão.

No entanto, sempre há quem diga que abomine mentira. “Mentir é errado”, disseram seus pais, que também ouviram o mesmo quando crianças. Os mesmos pais que diziam que um senhor idoso entrava pela chaminé das casas deixando presentes nas madrugadas do dia 25 de dezembro. Os mesmos pais que pediam para dizer que não estavam quando o telefone tocava.

Certo e errado sempre foram empurrados como dogmas garganta abaixo, sem margem para contestações. E, apesar disso, mentimos o tempo todo. Mentimos sobre o que sentimos, mentimos para socializar, mentimos para amansar nossa vaidade. De forma a aliviar a nossa consciência, fizemos subdivisões da mentira: se ela nos faz bem, é completamente perdoável. O hedonismo mais uma vez nos oferece sedutoramente a maçã do proibido.

Não é possível, entretanto, caminhar para sempre de olhos fechados. Em determinado momento, a verdade se projetará como uma pedra no meio do caminho. Então, o céu azul se desmanchará, o cenário paradisíaco desabará e as lágrimas perdidas encontrão seu caminho de volta, limpando os olhos turvos pela embriaguez da falsa beleza.

Prosseguiremos caminhando, agora sujos, machucados, molhados por nosso choro devastador. Mas lúcidos. Expulsos da realidade ilusória do que deveria ser mas não é, conquistando a redenção que não é doce nem bela, porém nos faz gigantes. A verdade é um tapa na cara: dói, mas é a única que nos ensina a bater.

domingo, 8 de março de 2009

todos sempre falam em acreditar, eu sempre pergunto: acreditar em que?



Não escrevo a dor fingida, embora as palavras fiquem imersas em certa atmosfera poética. Se te atraem, é porque o fim traz consigo a própria dimensão de beleza, muitas vezes incompreensível aos olhos humanos. O que nos encanta não é o cenário ou o diálogo, mas a magnitude do fim. Não importa se trágico ou cômico, feliz ou triste. O fim é belo por existir. Daí os aplausos.
A eternidade pode seduzir nos primeiros capítulos, quando vestida de vermelho e perfumada com o cheiro acre de perigo. Mas com o tempo tudo se amorna, e nossas esperanças são pisadas com pés frios. A ausência de fim entedia e torna monocromática a expectativa.
Apesar disso, muitos desejam que tudo dure para sempre. Acreditam que assim possuirão o momento em mãos, podendo sentir o que tiveram naquela ocasião por indefinidas vezes. E enquanto desperdiçam tempo tentando segura-lo, deixam escapar outros diversos.
É pecado tentar abrir novas portas enquanto as anteriores ainda estão abertas. Cedo ou tarde você terá que retornar para fechá-las. Do contrário, sua existência pode se resumir em um eterno retorno de sensações e perdas, que te trará um medo exagerado de colocar a cabeça para fora da janela e enfrentar a rotina de ilusões. É besteira dizer que todo sofrer ensina: acreditar nisso é justificar nossos atos redundantes.
Eu sou fascinada por finais. Para mim, tudo que acontece deve durar o tempo de um conto, e o fim é o enlace dos momentos vividos. Sua real natureza, no entanto, depende da visão de quem o vive. Talvez por isso as grandes histórias que vivi tenham se passado apenas dentro da minha cabeça, protegidas pela beleza peculiar do fim, enquanto fora dela os fatos jaziam crus.
Se te digo que no fim choveu, é porque choveu. As vezes, apenas dentro de mim. O que me consola é que quando um dia vai embora, outro dia desperta. E com ele a possibilidade de estar pela primeira vez de olhos secos quando receber os aplausos da platéia.