Templates da Lua

Créditos

Templates da Lua - templates para blogs
Essa página é hospedada no Blogger. A sua não é?

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

o homem, Nietzsche e a chuva


Um exemplo de que a vida é, por muitas vezes, poética.



Não era domingo
Para aquele homem
E o cachimbo.
Carregava um livro
Aquele homem e seu cachimbo.
Para além do bem e do mal
Era somente
Nietzsche, a noite
O homem e o cachimbo
Choveu enfim.
E era somente
A chuva e um menino.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

meu espaço amostral infinito


O que essa xícara de café me diz, ignorando as intervenções de Saturno,não é segredo:cansaço. E eu já não sei se foi no terceiro ou quarto gole, ou em que encruzilhada do caminho eu me despedi de mim.
A necessidade de agora chegou êxtase,lenta e sorrateira. Deslizava entre a nebulosidade que fugia da minha xícara. Ainda existo enfim, embora como visita longínqua.
Ser exato é correto e sucinto. Paixões, apesar de sucintas,nem sempre são corretas. São inexatas, mas eu as amo.
Existe algum elo ao qual posso me atar?Alguma forma de juntar esses dois inteiros no meu mesmo pequeno espaço, compartilhado com essa xícara de café?
Sou ambígua e assim prefiro. Ainda não compreendi ter de viver na mesquinhez de solitárias escolhas. Quero escorregar na linha-tênue-entre-razão-e-emoção. Sempre apreciei a vertigem.
Quase-ser é dizer que algo me falta. E apesar de "quase" ser rima rica com "fase", quase-ser é minha pobreza. Meu dogma.
Porém a visita longínqua, a necessidade fugaz, se desfez mórbida junto ao vapor que saía da xícara. O café esfriou.

desenterrando


Essa foi a primeira resenha que eu fiz na escola. Até hoje não sei o que significa isso direito.


Nas coxias: as sete quedas de Aurélia
Olívia Barbosa Ferraz de Andrade

Percorrendo as letras de Senhora como leitora assídua,não mais passageira,enveredei-me em divagações costumeiras. Em uma delas, ousei despir a obra de seu manto incorpóreo e de particularidades filhas das tentações de Alencar,próprias dos artistas que,diante de suas obras,apagam ou avivam algumas pinceladas. Prossegui minha leitura sobre essa ótica simplista mas,no mínimo, interessante. Ao final,pasmada, perguntei: o que restou de Aurélia, senão réplica fiel de nossas almas?Apresento-lhes então a grande comédia da vida, na qual todos nós desempenhamos nossos papéis com espetacular perícia.Nela sofremos o que decidi chamar de “as sete quedas”.
Como todo e qualquer ser humano, Aurélia nasceu boa de espírito. Esta qualidade,porém,se desgastou gradativamente com os atritos das primeiras repressões e foi destituída de toda forma com as primeiras quedas sofridas. A primeira queda é,apenas,o ensaio para outras subseqüentes. A de Aurélia, e a cito como quem cita você leitor ou qualquer outro conhecido,ocorreu pelo que muitos aclamaram e poetizaram: o amor.
Aurélia amou Seixas. E,o amando, entregou-se completamente, se expondo a todas as conseqüências de sua redenção. Alcançando o apogeu do dito ato sublime, deparou-se com as armadilhas byronistas e, numa delas, sofreu sua segunda e consecutiva queda: a traição.
Nesse ato, sob doloridas verdades, poucos prosseguem esperançosos. Outros criam uma autodefesa, abandonando o foco natural, o coração, para concentrar-se no cérebro, onde residem as faculdades especulativas do homem.
É completamente inadmissível ao homem expor sua vertigem ao público. As forças que o restam servem para arquitetar seu plano para erigi-lo novamente, recuperando seu prestígio ante a sociedade. A sua terceira queda é conseqüência de uma sórdida vaidade, alimento para o ego. E, junto a ela, projeta-se sua quarta queda,também constituinte do seu plano de recuperação da aparência: a vingança.
A vingança é o desejo extremo de se sobrepor. Passa a existir a necessidade de ver o outro prejudicado, omisso. Destila-se sarcasmo nas entrelinhas, busca-se subalternizar e aniquilar o outro ser. O placebo que ao mesmo tempo em que alivia, sufoca.
A quinta queda precede ao raciocínio calculista: a mentira. Completa-se então o plano perfeito para mascarar qualquer subsídio de fraqueza. A mentira manipula,disfarça,encobre e reforça todos os outros elementos. Faz o pobre passar-se por rico. O infeliz acreditar ser feliz.
O objetivo principal de tal estratégia é evitar novas derrotas. Tudo passa a ser um grande jogo e ninguém quer perder. Não nos ensinam a aceitar o prazer da competição. Ninguém se lembra dos que quase conseguiram. Ao chegar nesse ponto da trama, o indivíduo acredita ser imune a tudo, imbatível. Desdenha dos inimigos.
Porém a maior de todas as guerras está por vir: a guerra contra si mesmo, contenda criada pela própria consciência. O indivíduo toma conhecimento de quão atroz foram seus atos e se sente usado por seus íntimos sentimentos. Funde-se causa e vítima. Seus desejos, agora vis, tornam-se fardos que novamente o força a descer do topo e o esmaga sob a dura realidade.
Nos últimos atos dessa magnífica peça alguns pedem perdão e se libertam: heróis. Uns preferem deixar aflorar o orgulho e rancor, mergulhando em uma inexaurível queda livre: humanos.
A vida possui, porém, algumas diferenças do espetáculo de Aurélia. Nem sempre ela participa de axiomas. Não compartilha finais felizes e eternos. Mas apreciemos José com sua corja de primatas amestrados. Não lhes parece familiar?
“Sejamos desgraçados, mas não ridículos. Tudo, menos dar minha vida em espetáculo a este mundo escarninho”.


liberdade, liberdade


Sou um corredor de portas abertas. Você tem todo o direito de entrar. E todo o direito de sair. Todavia, eu continuo morando em mim.O vai-e-vêm dos transeuntes não me causa sensação definida. Assim como as ondas do mar me tranquilizam, me causam náuseas. Em determinado momento, cansei de sentir saudade. Um erro lamentável, não minto: às vezes eu fecho a porta e ninguém entra.Tudo que sobe, desce. Tudo que vai, volta? Não existem leis para chegadas e saídas. Existe um direito: ir e vir, e a pesarosa liberdade que a América representa.Não sei se me sinto muito melhor do lado de fora de minhas portas. De certa forma, penso que sentiria uma solidão infinda, em proporções populacionais. É um pecado, mas tem dias que eu acordo, e me simpatizo com a ditadura: só pra ter alguém a ouvir. Lógico, é mais uma idéia desconexa matinal, que logo passa depois do café.É paradoxal, eu sei. Receio a liberdade, e a ofereço gratuitamente por minhas portas. Eu não disse que faria sentido. Tenho mil justificativas para explicar minhas atitudes incoerentes. Dica: se são justificativas, não merecem ouvidos.Não temo minhas visitas. Eu tenho medo é de errar.

(de uma conversa entre amigas)

primeiras impressões


“É que às vezes eu escrevo”. Não foi bem um desabafo, minhas mãos não suaram e nem senti meus ossos doerem. Era mais acanhado, meia confissão-meia vergonha. Não apliquei nenhum julgamento ao ato. Qualquer opinião pessoal destruiria qualquer possibilidade de diálogo, eu estava no meu limite de timidez.
Começou cedo, sob a forma de vontade. Sempre tive mais intimidade com o lápis do que com meus primeiros passos (convenhamos habilidades físicas nunca foram lá minhas virtudes). Foi uma poesia infantil, saída de um reino imaginário ou de qualquer outra terra mágica descrita em livros de psicologia moderna. A vontade se tornou constante, passou a necessidade, chegou a ebulição. Depois foi se acalmando, visitando quinzenalmente, mensalmente, igual amor antigo.
Não é pecado, não é proibido, não é feio. Mas de certa forma, escrever sou eu. Me sinto nua em minhas palavras, por isso o medo. Por isso me cubro com todas as expressões que posso, tentando esconder minhas vergonhas com vírgulas e parágrafos. Tudo que escrevo, eu vivi, pensei, falei, amei. No entanto me tornei tão egoísta que não permito a quem lê compartilhar isso comigo. Não sei definir se isso é bom ou ruim. Talvez seja horrível. Aprecio a mutabilidade das coisas, enfim. Mas me despir assim, de vez, foge aos meus princípios literários. Se pudesse resumir tudo isso, diria: entenda como quiser. E fim de conversa.