
Essa foi a primeira resenha que eu fiz na escola. Até hoje não sei o que significa isso direito.
Nas coxias: as sete quedas de Aurélia
Olívia Barbosa Ferraz de Andrade
Percorrendo as letras de Senhora como leitora assídua,não mais passageira,enveredei-me em divagações costumeiras. Em uma delas, ousei despir a obra de seu manto incorpóreo e de particularidades filhas das tentações de Alencar,próprias dos artistas que,diante de suas obras,apagam ou avivam algumas pinceladas. Prossegui minha leitura sobre essa ótica simplista mas,no mínimo, interessante. Ao final,pasmada, perguntei: o que restou de Aurélia, senão réplica fiel de nossas almas?Apresento-lhes então a grande comédia da vida, na qual todos nós desempenhamos nossos papéis com espetacular perícia.Nela sofremos o que decidi chamar de “as sete quedas”.
Como todo e qualquer ser humano, Aurélia nasceu boa de espírito. Esta qualidade,porém,se desgastou gradativamente com os atritos das primeiras repressões e foi destituída de toda forma com as primeiras quedas sofridas. A primeira queda é,apenas,o ensaio para outras subseqüentes. A de Aurélia, e a cito como quem cita você leitor ou qualquer outro conhecido,ocorreu pelo que muitos aclamaram e poetizaram: o amor.
Aurélia amou Seixas. E,o amando, entregou-se completamente, se expondo a todas as conseqüências de sua redenção. Alcançando o apogeu do dito ato sublime, deparou-se com as armadilhas byronistas e, numa delas, sofreu sua segunda e consecutiva queda: a traição.
Nesse ato, sob doloridas verdades, poucos prosseguem esperançosos. Outros criam uma autodefesa, abandonando o foco natural, o coração, para concentrar-se no cérebro, onde residem as faculdades especulativas do homem.
É completamente inadmissível ao homem expor sua vertigem ao público. As forças que o restam servem para arquitetar seu plano para erigi-lo novamente, recuperando seu prestígio ante a sociedade. A sua terceira queda é conseqüência de uma sórdida vaidade, alimento para o ego. E, junto a ela, projeta-se sua quarta queda,também constituinte do seu plano de recuperação da aparência: a vingança.
A vingança é o desejo extremo de se sobrepor. Passa a existir a necessidade de ver o outro prejudicado, omisso. Destila-se sarcasmo nas entrelinhas, busca-se subalternizar e aniquilar o outro ser. O placebo que ao mesmo tempo em que alivia, sufoca.
A quinta queda precede ao raciocínio calculista: a mentira. Completa-se então o plano perfeito para mascarar qualquer subsídio de fraqueza. A mentira manipula,disfarça,encobre e reforça todos os outros elementos. Faz o pobre passar-se por rico. O infeliz acreditar ser feliz.
O objetivo principal de tal estratégia é evitar novas derrotas. Tudo passa a ser um grande jogo e ninguém quer perder. Não nos ensinam a aceitar o prazer da competição. Ninguém se lembra dos que quase conseguiram. Ao chegar nesse ponto da trama, o indivíduo acredita ser imune a tudo, imbatível. Desdenha dos inimigos.
Porém a maior de todas as guerras está por vir: a guerra contra si mesmo, contenda criada pela própria consciência. O indivíduo toma conhecimento de quão atroz foram seus atos e se sente usado por seus íntimos sentimentos. Funde-se causa e vítima. Seus desejos, agora vis, tornam-se fardos que novamente o força a descer do topo e o esmaga sob a dura realidade.
Nos últimos atos dessa magnífica peça alguns pedem perdão e se libertam: heróis. Uns preferem deixar aflorar o orgulho e rancor, mergulhando em uma inexaurível queda livre: humanos.
A vida possui, porém, algumas diferenças do espetáculo de Aurélia. Nem sempre ela participa de axiomas. Não compartilha finais felizes e eternos. Mas apreciemos José com sua corja de primatas amestrados. Não lhes parece familiar?
“Sejamos desgraçados, mas não ridículos. Tudo, menos dar minha vida em espetáculo a este mundo escarninho”.