
Eu sei que você vai estranhar ao ler isso. Mas você já devia imaginar que durante aqueles pesados momentos de palavras vagas existia muito mais a ser dito. Nunca reclamei da sua fugacidade, embora ela despertasse sempre a aflição de um suposto fim irreconhecível. O fato é que depois de um tempo, me acostumei com sua presença, e já aguardava seus passos lentos ansiosa, espiando por cima dos ombros você me surpreender. De vez em quando você me dava uma rasteira, eu tropeçava, enquanto você só sorria e dizia “é para você acordar”. Um dia acordei, e não te vi mais. Espero que não se importe com a desordem dos fatos, ela combina com sua personalidade atemporal e sua blusa cinza. Se eu te escrevesse assim bonitinho, estaria traindo o estado em que está minha mente, então deixei tudo do jeito que sempre foi: bagunçado, jogado, espalhado pela folha. Você sabe que não sou organizada. Na verdade, você sabe demais sobre mim, e não sei mais dizer se isso é bom ou ruim. No início era feliz e medroso, como os cincos segundos para o ano novo: nunca se sabe o que te aguarda após as sete ondas, mas pulamos de alma lavada e com esperança de bons tempos. O vento que passou, no entanto, levou você e deixou meu suspiro. Sumiu com o sol e me deixou na esquina, esperando seu olhar debaixo de chuva e blues. E agora, esse é o final desse filme noir? Ainda aguardo uma reviravolta, você puxar meu braço enquanto eu ando distraída, me falar qualquer coisa sobre nada e me engolir com esses seus olhos de maré alta. Porque você é essencialmente o que escrevo, a definição bruta de sincronicidade. É a fusão do meu preto e branco, quente e frio, céu e inferno. É a insustentável leveza da minha existência. Você sou eu. E depois de fazer tantas coincidências convergirem para um caminho só, aquela rua por onde andamos os dois de mãos dadas ébrios, você não pode me deixar assim. Você me deve uma, acaso.


4 comentários:
Simplesmente maravilhoso!
Bjoos'
Olá!
A LivroPronto Editora convida você, autor, para uma conversa sobre a publicação de sua obra.
Escreva para nós!
gabriela@livropronto.com.br
Um grande abraço!
Obrigada pelo comentário! *-*
é incrível como a efemeridade das pessoas consegue machucar a gente. :X
adorei o blog. beijão!
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